14 December 2017

Catorze do doze

Meu pai foi o primeiro negro que (re)conheci.
O primeiro negro que vi na pele dele, literalmente, o quanto o mundo exclui, intimida e diminui quem não é do universo branco.
Ele nasceu na década de 20, num tempo em que ser preto e bem sucedido era ainda mais exceção que em 2017.
Hoje meu painho faria 93 anos.
Eu queria muito que seu Waldemar de Carvalho Santana estivesse vivo, sorridente, brincalhão e sisudo, ao mesmo tempo.
Eu queria muito que amanhã ele recebesse das minhas mãos, um exemplar do meu livro e me desse um senhor abraço.
Eu queria que ele me visse assim, do jeito que sou: pedagoga, professora, blogueira, escritora e, o principal, muito indignada com essa realidade racista, machista, homofóbica e misógina, em  pleno século 21.
Comemoro somente as datas de nascimento daqueles que eu amo e o tempo em vida que juntos trilhamos juntos, antes da partida. Foram só 12 anos.
Eu tenho 12 bons motivos, 12 meses, todos os anos, para agradecer pelos aprendizados, por ter aprendido que a minha luta nesse mundo, é pelo coletivo que ele (e eu) fazemos parte. É também por ele que sigo inspirada e desejante.

2 December 2017

hoje vou fazer uma sopa

Todo sábado me permito faxinar. A casa, as unhas, o carro empoeirado.
Todo sábado prolongo aquela horinha preguiçosa na cama e decido ali permanecer: sem pressa, sem correria, sem relógio apontando que o sol segue alto.
Minha rotina não é das piores. Cabe música, paradinhas pra responder mensagens, olhadela nos grupos, nas redes, tempo pra um café caprichado.
Não sei até quando terei energia para limpar a casa, os cantos e organizar armários. Não sei até quando a faxina seguirá sendo minha terapia. Mas tem funcionado. Ao fim do dia, como agora, parece que limpei todas as arestas. Parece também que fiz uma espécie de peeling na mente e esvaziei quilos de perguntassempropósitos, respostaspranemseioquê.
Claro que eu poderia contratar alguém pra fazer esse trabalho. Claro que posso me dar a esse luxo. Mas cuidar da minha casa é um luxo. Ora, se eu moro só e vivo na rua, por que não curtir esse momento a sós, eu e a minha bagunça? Quem mais deveria estar aqui, se sou eu quem provoco a sujeira? Não cabe ninguém. Não quero ninguém bisbilhotando minha lixeira, minhas compras, minhas esquisitices. Não pega bem alguém me ouvir conversar sozinha. Mais de uma mulher habita em mim. Eu pergunto e eu respondo. Não são monólogos. Ouso a dizer que são diálogos doidos, que não começam nem terminam.
Por isso, insisto em dizer que simplesmente não cabem estranhos no meu apartamento. Aqui só entra quem eu convido. Não cabe ninguém que vai mudar as coisas de lugar. Eu gosto de controlar, sim. Que mal há nisso se o que controlo me pertence? Problema seria se eu estivesse por aí, tirando as coisas dos outros do lugar. Ok, confesso. Faço isso na casa de minha mãe. Mas ela ama que eu esteja lá e fazendo tudo do meu jeito. Dona Nalva confia em mim. Ela sabe que faço tudo pra deixá-la confortável, com tudo fácil de apanhar.
Ao final da limpeza, além de fome, dá mesmo a sensação de que está tudo em ordem. Ao menos piso descalça e sinto que o caminho está livre e o ar mais leve. 
E além do estômago que pede atenção, o coração também anuncia que parece querer visita quando a casa está limpa. Mas chega dessa conversa fiada que não vai levar a lugar algum. Decidi que eu vou pra cozinha e, por ora, é melhor mesmo esquecer essa segunda parte.

31 October 2017

a vida é um piscar e dói mais do que deveria.

Ontem dois irmãos morreram afogados.
Alisson, 20 anos. Andrei, 16 anos.
Estavam desaparecidos e a família desesperada com o sumiço.
Allison era um jovem estudante de Biologia da Ufal, Campus Arapiraca, que seguia seu sonho de tornar-se pesquisador de insetos. Eis que decidiu trilhar sozinho e levou o irmão junto, certamente como apoiador da aventura pela ciência a céu aberto.
Fico pensando na dor da mãe que antes estava desesperada e, na primeira das seguintes segunda-feiras, dormiu sem receber em casa os seus filhos da volta de um passeio de domingo.
Hoje tivemos outra morte no trânsito.
Foram quase 2h num engarrafamento na via expressa e o que eu sabia é que tinha havido um acidente grave.
Junto com o corpo do jovem estendido no chão, a pista sangrava. Quem chorou por ele? Quem o aguardava? Será que estudava? Será que tinha filho? Será que, assim como eu, estava atrasado para o trabalho? Será no quê ou em quem pensava no momento da batida?
Eu, impaciente, só pensava em mim e no MEU compromisso. Eu só não imaginava que veria a cara da morte, assim, no asfalto, e pior, que eu passaria (de novo) com pressa, sem parar, agradecendo por ter o meu caminho liberado.
Partiram 3 que eu soube, em dois dias.
Eu tenho plena convicção que eu não deveria ser tão egoísta ou considerar natural a morte de ninguém.
Eu não deveria seguir como se nada tivesse acontecido.

10 October 2017

devaneios numa terça

Eu tenho o maior desejo de comemorar a vida, ao ganhar uma foto com o nascer do sol, num dia que começa com notícia triste. 
Eu fico toda loba quando me mandam a imagem de uma lua cheia, transbordando pelo mar, naquelas noites mais solitárias.
Eu sigo toda tia babona quando baixa um novo videozinho do meu sobrinho, justamente quando tudo parece perder sentido.
Eu fico toda emocionada quando sou lembrada por gente querida, e até por simples colegas, com matérias, artigos, teses, livros que tratam de relações étnico-raciais, ensino superior, políticas educacionais.
Eu me desmancho inteirinha quando recebo poesia ou um "passando pra te mandar um beijinho grande".
Eu sou uma sortuda. Já ganhei algumas canções lindas. Recebi uma, por telefone, de um certo alguém que não conheci e incorporou Hebert Viana e me perguntou cantando "quais são as coisas e as coisas pra te prender?". Não respondi e a paixão seguiu platonicamente linda.
Ah... eu já ouvi (só pra mim) a versão de "Lambada de serpente". Isso nunca vai ter preço.
De fato eu enlouqueço quando um mimo virtual me faz sorrir pra uma tela fria, mas tão quente.
#devaneiosnumaterça

3 October 2017

como é que ainda tem jornalista que nos diz "boa noite"?

No fim da tarde, após um mundo de assuntos finalizados, ela respirou fundo e pensou alto, como sempre faz pela casa inteirinha só dela (e só pra ela):
- chega de trabalhar, agora vou ver como é a tal da nova novela!
Lembrou que isso de falar sozinha está virando parte da rotina e é preocupante.
- bobagem, quem nunca?
Riu de si mesma, se ajeitou no sofá, esticou as pernas, agradeceu pelo clima de outono que insiste na primavera e ligou a televisão.
Estava passando a tal da nova novela de época, com cenas de machismo, de racismo explícito, e com aquela (velha) história repetitiva de pai que não aceita namoro de filha que aparece grávida e ordena que vá pro convento.
- Mais do mesmo, minha gente... custa inovar?
Enquanto pensava sobre isso, seus olhos pesaram e adormeceu antes do jornal das oito que tanto queria assistir. Acordou sobressaltada, achando que estava atrasada para um compromisso. Desistiu de levantar e continuou cochilando. O compromisso era ali mesmo, entre uma almofada e outra.
Vai ver a programação estava ruim e o sono venceu. Vai ver o cansaço era grande e o sono venceu. Vai ver era pra se desligar mesmo e esquecer essas coisas todas ruins que povoam as redes sociais, os nossos ouvidos e os nossos olhares indignados: um falso presidente que insiste que governa, um reitor que se suicidou, outro que exonerou, mais terrorista tocando o terror na cidade dos que casam à meia-noite e separam pela manhã, quando a ressaca denuncia.
É fato que dormir muitas vezes se confunde com fuga, para além do cansaço. Sonhar com um mundo melhor enquanto se dorme nem sempre funciona. A TV ligada lembra que a vida aqui do lado de fora continua um assombro e é isso que faz essa moça despertar e voltar renovada para a luta, ainda que seja para desabafar.
Escrever também é uma forma de resistir.

11 September 2017

daí que ganhei o dia num banheiro público


Daí você entra apressada no banheiro, com muita vontade de encontrá-lo limpo, com papel e avança em direção à cabine disponível. Como não tem nenhuma livre, recua e fica ali, se apertando e torcendo pra vagar logo e chegar a sua vez. 
Nesse momento de alívio (quase) imediato, a porta se abre e dá de cara com um lindo sorriso, seguido de:
- professora Jusciney?
- oi querida, como você tá?
- eu tô bem...
- que bom...
Daí você sai do "box" e o sorriso continua ali, presente, entre uma pia e outra e aí você se dá conta de que aquela menina quer continuar o papo do reencontro. Então você lava as mãos e pergunta:
- como está a turma?
- ah professora, eu não sei... já fiz mestrado e já estou no doutorado.
- hein? como é que é? quando você foi minha aluna?
- eu fui sua aluna em 2011, em Ciências Sociais.
- mas faz muito tempo... e lembrou de mim? Desculpa, mas são muitos alunos, muitas turmas...
- é, eu imagino... mas sua aula é ótima.. a senhora é inesquecível.
- ah... que lindo... assim eu fico emocionada... e veio visitar a Ufal?
- pois é... acabei de me inscrever num concurso pra substituto no Instituto de Ciências Sociais...
- ah... que legal, você vai passar! E como se chama?
- Noélia.
- Noélia... me conta aí do seu doutorado... o que está pesquisando? onde está fazendo?
- ah... uma pesquisa sobre o pensamento desviante na igreja universal do reino de deus, na Universidade Federal de Campina Grande.
- uau... o que será que vem por ai?
- ruptura, professora....
Daí que abri o meu sorriso também, desejei sorte no concurso e na vida.
Daí que num meio de uma segunda meio chuvosa, me apareceu Noélia e seu sorriso encantante com efeito dominó. Com tanta miséria humana alardeada pelos 4 cantos, eu penso que ainda é possível (e necessário) se animar.
#elaadoracausos #serdocenteéomáximo
(fim)

22 August 2017

meu blog aos 8 (não parece que foi ontem)

Quando lembro dessa mesma data, oitos anos atrás, após um longo dia de aulas de pós-graduação em Psicopedagogia, surge da memória todo o cenário à minha volta, quando resolvi criar um blog, esse que vos fala, o Foi assim:
Foi naquela noite, sentada num quarto de hotel, numa noite fria do típico inverninho da região sudoeste da Bahia, na cidade de Seabra, considerada a capital da Chapada Diamantina, que está situada a quase 600 km de Salvador, que publiquei a primeira postagem intitulada No interior, o meu interior
Eu procurava, na verdade, dar sentido às vivências daquela época e por isso me sinto até nostálgica ao lembrar desse período da minha vida. Tanta coisa aconteceu. Tanta coisa mudou em mim. Outro dia me dei conta da minha falta de leveza. Do quanto estou pesada. Do peso que é pensar tanto, fazer tanto, lembrar tanto, de tantas coisas que vivi ou que tenho que fazer, providenciar, responder, produzir ou prestar contas. 
É assim que vivo hoje: prestando contas. É um viver quase no automático, sem tempo para ser leve. Sem desejo de ser leve. Isso dói.